MORRO DO CASTRO, SÃO GONÇALO: A HISTÓRIA DE UM BAIRRO MARCADO POR RESISTÊNCIA DE UM POVO HEROICO E TRABALHADOR

Das antigas fazendas e rios às remoções da ditadura militar, o Morro do Castro preserva símbolos históricos, religiosos e culturais em meio ao abandono urbano

Localizado entre São Gonçalo e Niterói, o Morro do Castro reúne décadas de histórias populares, crescimento urbano desordenado e forte identidade comunitária.

Foto: Google maps


O Morro do Castro, localizado entre os limites de Tenente Jardim e Niterói, possui uma trajetória marcada por antigas fazendas, ocupações populares, deslocamentos forçados e resistência comunitária. Antes da urbanização intensa, a região possuía características rurais e servia como rota de tropeiros vindos da Região dos Lagos em direção à Baía de Guanabara, ainda durante o período colonial.

Entre as décadas de 1920 e 1940, a área era formada por grandes propriedades rurais, entre elas a Fazenda Castro Alves, a Fazenda Cruz Nunes e a Fazenda Pau Ferro. A Fazenda Castro Alves, pertencente ao senhor Castro, foi dividida em 1930 em duas partes conhecidas como Castro Alves e Maria Clara, sendo posteriormente arrendada para pequenos colonos.

Em 1942, parte das terras foi adquirida pela Imobiliária Ary e Silveira, responsável pela oficialização do loteamento Tenente Jardim junto à Prefeitura de São Gonçalo. Já em 1947, a Imobiliária Bela Vista comprou outra parte da região e lançou um projeto residencial voltado para a classe média, com casas-modelo e até uma piscina abastecida por nascente natural.

A antiga piscina ficava no local onde atualmente estão a Praça Bela Vista, oficialmente Praça Belarmino de Mattos, e a Escola Municipal Professor Djair Cabral Malheiros. Nas décadas seguintes, especialmente nos anos 1960, a piscina acabou aterrada em meio ao avanço da ocupação urbana.

Na década de 1960, o Morro do Castro ainda possuía poucas residências e mantinha características quase rurais. No trecho onde atualmente está localizado o Condomínio Bento Pestana I, entrando pela Estrada Rio das Pedras, existia um rio bastante conhecido pelos moradores. O local era considerado um dos mais bonitos da região, mas acabou desaparecendo no início da década de 1990 devido à poluição e ao crescimento desordenado.

Subida do Morro do Castro era parecida com essa imagem na década de 50. O caminho era um pouco mais acidentado e estreito. Foto: Reconstrução por IA 


Foi também nessa época que os ônibus começaram a subir o morro. O proprietário da antiga empresa Expresso Tenente Jardim contratou um trator para abrir caminho até a localidade. Antes disso, os coletivos chegavam apenas ao chamado Rodo de Tenente Jardim, nome dado ao local justamente por ser o ponto final das linhas.

A Expresso Tenente Jardim, foi vendida em 1982, quando foi comprada pela Auto ônibus Brasília | A empresa possuía 2 carros quando começou a operar.


Durante a abertura da estrada, uma enorme mangueira existente na subida do morro precisou ser retirada para permitir a passagem dos veículos.

A infraestrutura da região ainda era extremamente precária. O abastecimento de água encanada só começou a chegar ao Morro do Castro no início da década de 1990. Até então, moradores precisavam buscar água no conhecido Poço da Sereia, localizado no fim da Rua 21. O local era frequentado inclusive por moradores de Tenente Jardim.

A Rua 21, atualmente uma das mais conhecidas da comunidade, era inicialmente um caminho estreito, aberto manualmente por um morador da região, marido da falecida Francisca, que vivia no fim da localidade.

Até os dias atuais, o bairro ainda preserva uma antiga capela histórica ligada à fazenda que existia antes da urbanização da região.

As mudanças mais profundas ocorreram a partir da década de 1970, durante o regime militar. Centenas de famílias removidas da Favela do Sabão, também conhecida como Favela Maverói, em Niterói, foram levadas para áreas periféricas devido às obras da Ponte Rio-Niterói.

Sem estrutura adequada ou políticas públicas de acolhimento, muitas dessas famílias chegaram ao Morro do Castro e passaram a construir suas casas com madeira, barro e materiais improvisados. O antigo projeto de bairro planejado acabou sendo substituído por uma ocupação popular marcada pela ausência de urbanização, documentação fundiária e investimentos públicos.

Com o passar dos anos, o Morro do Castro consolidou sua própria identidade comunitária. O bairro possui dois tradicionais campos de futebol conhecidos como Campo do Gordo e Campo do Veterano, importantes pontos de encontro para moradores e atletas da região.

A religiosidade também marca fortemente o território. O bairro abriga a tradicional Igreja Santa Rita de Cássia, além de diversas igrejas evangélicas espalhadas pela comunidade. Outro ponto conhecido é o monte de orações, frequentado por moradores que buscam momentos de fé e espiritualidade.

Na área da saúde, o Morro do Castro possui dois postos de atendimento médico: um voltado para a área próxima de Niterói e outro ligado ao lado de São Gonçalo.

O bairro também mantém forte tradição cultural e carnavalesca, contando com escola de samba local, Unidos do Castro, e manifestações populares que ajudam a preservar a identidade da comunidade.

No transporte público, o Morro do Castro já chegou a contar com quatro linhas de ônibus circulando pela região. Atualmente, porém, os moradores convivem com a redução drástica da mobilidade. Hoje, apenas a linha 67 faz ligação com Niterói, enquanto não existe mais linha direta de ônibus conectando o bairro ao Centro de São Gonçalo.

Apesar das dificuldades históricas, do abandono urbano e da falta de investimentos públicos, o Morro do Castro permanece como um dos bairros mais simbólicos da região, carregando memórias de antigas fazendas, rios desaparecidos, remoções forçadas e gerações de moradores que ajudaram a construir a história local.

Capela histórica Igreja N. S. das Graças, no terreno da fazenda/Fotos: Erick Bernardes e Paulo Pezão

Pesquisa: Jornalista William C. Simas.

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