Taxação de Trump Contra o Brasil Escala Crise Diplomática e Exibe Alinhamento com Bolsonaro
EUA anunciam tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e acirram tensão geopolítica; Brasil promete retaliação caso negociação fracasse
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Foto: reprodução |
Governo Biden ainda não se pronunciou oficialmente, enquanto ala bolsonarista tenta explorar o episódio para desgastar o Planalto.
A decisão do governo norte-americano de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, a partir de agosto, acendeu o alerta vermelho no Itamaraty e mergulhou as relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos em uma nova fase de conflito e tensão diplomática. O anúncio partiu diretamente de Donald Trump, que oficializou a medida em carta enviada ao governo brasileiro nesta quinta-feira (11), alegando que o Brasil estaria promovendo uma “caça às bruxas políticas”, numa referência direta ao julgamento de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A retaliação comercial não veio isolada. Segundo analistas, ela representa uma movimentação coordenada do ex-presidente americano para agradar sua base ideológica e fortalecer seus aliados fora dos EUA — Bolsonaro à frente — num contexto de disputa global por hegemonia monetária, especialmente com o avanço do BRICS e suas discussões sobre uma nova moeda comum entre países emergentes.
Em tom firme, o governo brasileiro afirmou que buscará inicialmente a via diplomática, tentando negociar a reversão da medida. Caso não haja recuo por parte dos EUA, o Brasil promete reagir com base no princípio da reciprocidade, adotando tarifas similares sobre produtos norte-americanos. Nos bastidores, integrantes da equipe econômica temem uma escalada que afete setores estratégicos da economia, como o agronegócio e a indústria de base.
Para especialistas em política internacional, Trump está "unindo o útil ao ideológico": mira o BRICS, que considera uma ameaça à supremacia do dólar, enquanto presta apoio explícito ao aliado Bolsonaro, em plena fragilidade judicial. “A taxação é um gesto político com roupagem econômica. É mais sobre o xadrez do poder global do que sobre balança comercial”, explica o cientista político Fernando Leal.
A ala bolsonarista do Congresso — especialmente liderada por Eduardo Bolsonaro, que mantém residência nos EUA e trânsito com o trumpismo — tenta transformar o episódio em mais um elemento de confronto contra o atual governo, denunciando uma suposta perseguição política contra o ex-presidente. No entanto, setores mais moderados da direita temem que essa postura radicalizada seja um tiro no pé, prejudicando interesses comerciais concretos do país e afetando diretamente exportadores, empresários e o setor produtivo que sustenta o próprio discurso liberal da direita.
A medida também expõe o desgaste da imagem do Brasil no cenário internacional, com a judicialização da política interna se tornando fator de instabilidade diplomática. A carta de Trump, ao mencionar o STF e criticar decisões jurídicas brasileiras, rompe a tradição diplomática de não ingerência nos assuntos internos de nações soberanas.
Enquanto isso, o governo brasileiro se vê forçado a equilibrar interesses: precisa defender a soberania nacional e proteger o mercado, mas sem transformar a crise em um conflito que possa prejudicar alianças estratégicas, sobretudo com os EUA — ainda o maior parceiro comercial em diversos setores.
A escalada das tensões marca uma nova etapa no conflito ideológico internacional: de um lado, democracias tentando restabelecer o multilateralismo; de outro, forças populistas buscando reerguer muros protecionistas e narrativas de guerra cultural. No centro dessa disputa, o Brasil se torna campo de batalha simbólico e comercial.
Se não houver uma inflexão no tom de Washington — ou um reposicionamento por parte de Trump — o mês de agosto pode marcar o início de uma disputa que vai muito além das tarifas: será mais um capítulo da longa guerra fria entre o globalismo e o nacionalismo exacerbado.
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