Coluna do Enrico: Crescer é perder o encanto e ainda assim continuar acreditando

Crônicas da vida adulta

Foto: ilustrativa

Um retrato poético sobre crescer e seguir acreditando, mesmo após o encanto se perder.


O encanto vai embora devagar. Você vê suas certezas desmoronarem, as histórias que eram linhas retas se tornarem labirintos, as pessoas em quem confiou tornarem-se estranhos e até você mesmo parecer outro. Quando a gente cresce, a mágica de não saber tudo se transforma muitas vezes em desencanto. Expectativas se quebram, sonhos se arrastam sob a poeira da vida adulta e a gente começa a carregar a frustração de quem acreditou demais. E não é que você tenha acreditado errado, é que o mundo é maior e mais complexo do que cabia no início. É que alguns planos se dissolvem, alguns amores se revelam passageiros, algumas causas geram mais perguntas do que respostas.

Mas crescer também é isso: continuar. Continuar acreditando naquilo que sobreviveu. Continuar se dispondo mesmo após se decepcionar. Continuar lendo, criando, amando, mesmo quando o livro tem páginas riscadas, quando o quadro está trincado, quando o outro já provou que não quer ver. Crescer é ir para a rua mesmo sabendo que pode chover, é colocar os pés no cimento frio da realidade e continuar.
Entender a realidade dura é importante, mas desistir diante dela é outra coisa. Você pode perder a promessa que viu no primeiro encontro, pode descobrir que a amizade não se sustenta na rotina, que a família também fere, que o sonho precisa de mais apoio do que você tinha imaginado. E aí vem o grande ponto: continuar. Continuar quando não faz sentido interno, continuar quando o corpo pede pausa, continuar quando a cabeça diz que cansa. Continuar porque acreditar mesmo quando tudo conspira contra é um ato de liberdade. É mostrar que você não vai deixar o mundo moldar seu limite. É erguer a própria mão em direção a uma vontade que persiste apesar das rachaduras.
E aí chega o momento em que você entende que, acreditando mesmo sem garantias, você se expõe de novo. E aí você decide que vale. Que a verdade dentro de você, aquela chama teimosa, ainda é mais forte que qualquer pulverização de esperança. Então, você continua acreditando. Não, porque tudo vai dar certo. Mas, porque o ato de continuar já é um gesto valioso. Crescer é tocar o chão duro, olhar a tempestade nos olhos e escolher o recomeço mesmo sabendo que pode cair novamente.
         Você perde o encanto, mas não perde o que importa. Você entende que acreditar não é ilusão, é escolha. Não é sinal de fraqueza, é sinal de coragem. Não é fechar os olhos para a dor, é escolher o caminho apesar dela. E quem ainda acredita após perder o encanto não vive no encanto — vive na potência. E a potência, essa, sim, é poder puro.
@enricopierroofc
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