BOTAFOGO, RIO DE JANEIRO: O CEMITÉRIO DOS ANJINHOS ESCONDE UMA DAS HISTÓRIAS MAIS TRISTES DA CIDADE
ÁREA OCULTA NOS FUNDOS DO SÃO JOÃO BATISTA GUARDA CENTENAS DE CRUZES SEM NOMES E MARCAS DA DESIGUALDADE SOCIAL
Local reúne sepulturas de crianças pobres vítimas da fome, desnutrição e doenças associadas à extrema miséria no Rio de Janeiro.
| Foto: Rafael Dos Santos |
Escondido atrás de um bambuzal, no alto de uma colina nos fundos do tradicional Cemitério São João Batista, existe um dos lugares mais silenciosos e esquecidos do Rio de Janeiro: o chamado “Cemitério dos Anjinhos”.
O local abriga centenas de cruzes simples espalhadas pelo terreno, sem lápides, fotografias ou identificação. Não existem nomes gravados, homenagens ou qualquer elemento que revele quem foram as crianças enterradas ali. Todas tinham menos de sete anos de idade.
Ao contrário do que muitos imaginam, o critério para ser sepultado naquela área nunca foi religioso. A pobreza extrema era o verdadeiro fator em comum entre os pequenos enterrados no local. Registros de óbitos apontam que muitas das crianças morreram vítimas de fome, desnutrição e doenças ligadas às condições precárias de vida.
Sem condições financeiras para adquirir uma sepultura oficial, inúmeras famílias acabaram enterrando seus filhos naquele espaço afastado e praticamente invisível para a maior parte da população.
O cenário é marcado pelo abandono. A vegetação tomou conta do terreno e quase não há sinais de manutenção humana. Folhas secas cobrem parte das covas rasas, enquanto poucas flores surgem aleatoriamente entre as cruzes envelhecidas pelo tempo.
O silêncio só é interrompido pelo som do vento atravessando o bambuzal, criando um ruído característico que aumenta ainda mais a atmosfera melancólica do lugar.
Enquanto a área dos “anjinhos” permanece esquecida, o Cemitério São João Batista se tornou um dos cemitérios mais conhecidos do país. Fundado em 1852 por Dom Pedro II, o local virou símbolo da elite carioca e reúne túmulos de ex-presidentes, artistas, escritores e grandes nomes da história brasileira.
Entre as personalidades sepultadas no cemitério estão Tom Jobim, Cazuza, Clara Nunes, Carmen Miranda e Carlos Drummond de Andrade.
O espaço também passou a receber visitas guiadas nos últimos anos, seguindo modelos semelhantes aos de cemitérios históricos famosos ao redor do mundo, como o Père-Lachaise e o Cemitério da Recoleta.
Apesar disso, a história das crianças enterradas no chamado Cemitério dos Anjinhos raramente é mencionada durante os passeios. Sem registros detalhados, sem túmulos identificados e sem familiares visitando o local, os “anjinhos” acabaram eternizados apenas como números nas antigas estatísticas de mortalidade infantil do Brasil.
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