CORAÇÃO ESCRAVO - Capítulo 1 | Encontro no Porto do Rio
CORAÇÃO ESCRAVO
Capítulo 1 | Encontro no Porto do Rio
Nossa história começa por volta de 1880, na cidade do Rio de Janeiro.
O coronel Augusto aguarda a chegada de seu filho ao porto da cidade. O navio, vindo de França, acaba de atracar.
Eduardo deixou o Brasil aos dezesseis anos para estudar na Europa. Durante esse período, conviveu com políticos, artistas e poetas, ampliando seus horizontes e conhecendo uma realidade muito diferente daquela em que nasceu. Agora, retorna à fazenda da família.
O jovem desce a rampa do porto, onde dezenas de pessoas aguardam a chegada de parentes e mercadorias. O coronel Augusto, que observava a movimentação entre comerciantes e carregadores, avista o filho e caminha apressado até ele.
Os dois se abraçam emocionados.
Pouco depois, sobem na charrete. Enquanto o coronel conduz os cavalos, Eduardo fala, entusiasmado, sobre as maravilhas que conheceu na Europa.
Ao chegarem à fazenda, Glorinha está na ampla varanda da casa-grande. Ao ver a charrete se aproximando, reconhece o irmão e corre para recebê-los.
Ela beija primeiro o pai e, em seguida, abraça Eduardo com força.
Eduardo: Minha irmã! Como você cresceu! Me espanta que ainda não esteja casada.
Coronel Augusto: Calma, meu filho. Já temos um excelente pretendente para sua irmã. Também estudou na Europa e deve chegar em breve. É um rapaz de muitas posses. Será um grande casamento.
Os três entram na casa.
Enquanto isso, mais afastado, Damião dava banho nos cavalos. Trabalhava em silêncio, mas seus olhos acompanhavam toda a movimentação da família.
Um jovem escravizado, Tenório, percebe a distração do companheiro.
Tenório: Você podia parar de olhar o movimento da casa e prestar mais atenção no serviço, Damião.
Damião: Você viu? O senhorzinho Eduardo chegou da Europa.
Tenório: E o que nós temos com isso?
Damião: Nada... Só fiquei curioso para ouvir as conversas dele. Saber como é viver por aquelas terras.
Tenório sorri de canto.
Tenório: Olha, Damião... O único lugar para onde escravo viaja por vontade própria é para o quilombo.
Algum tempo depois, Maria Sábia sai da casa-grande carregando um cesto de roupas na cabeça. Aproxima-se do varal e começa a estender as peças, espalhando outras sobre alguns arbustos para secarem ao sol.
Sempre curioso, Damião se aproxima.
Damião: Maria... O senhorzinho Eduardo chegou, não foi? Você ouviu ele contando alguma coisa sobre as terras estrangeiras?
Maria apenas dá de ombros, como quem não vê importância no assunto.
Maria: Ouvi... Mas acho que metade daquilo é história.
Damião: É mesmo? O que ele falou?
Maria: Disse que tem lugar onde não existe mais escravo. Que os brancos soltaram todo mundo...
Damião arregala os olhos.
Damião: Mas... como assim?
Maria: Soltaram, ué. Ele disse que fizeram umas leis por lá. Agora os brancos não podem ter escravos, nem bater nos negros.
Maria ajeita o cesto sobre a cabeça e suspira.
Maria: Agora me deixa trabalhar, Damião. Você é curioso demais.
Ela se afasta.
Damião permanece imóvel, com o olhar perdido, tentando compreender aquilo que acabara de ouvir.
Ao longe, Tenório continua lavando os cavalos, observando o amigo com desconfiança.
À noite, Glorinha costumava pedir um chá antes de dormir. Na verdade, era apenas um pretexto para conversar com Maria Sábia.
Maria era uma das escravizadas de maior confiança da casa-grande. Cuidava da limpeza dos quartos, lavava roupas, ajudava na cozinha e conhecia todos os afazeres domésticos, aprendidos com sua mãe, que durante muitos anos servira à família.
Naquela noite, Maria entrou no quarto carregando uma xícara fumegante.
Maria: Aqui está o seu chá, sinhazinha.
Glorinha recebeu a xícara, mas parecia interessada em outro assunto.
Glorinha: Maria... Você ouviu o que meu irmão contou? Sobre um rapaz que estudava com ele na França e se casou com uma mulher negra?
Maria fez o sinal da cruz, espantada.
Maria: Me perdoe, sinhazinha... Mas seu irmão não voltou da Europa contando histórias demais, não? Onde já se viu uma coisa dessas? Os brancos daqui vivem dizendo que negro nem alma tem.
Glorinha sorriu.
Glorinha: Amanhã vou pedir para meu irmão me levar até o rio para tomar a fresca. Quero que ele me conte essas histórias todas. Tenho certeza de que ele esconde muita coisa quando papai está por perto.
Maria ajeitou a colcha da cama.
Maria: E a sinhazinha não pensa no pretendente? Não tem curiosidade de saber se ele é bonito? Se tem bom porte?
Glorinha fez uma careta.
Glorinha: Ah, Maria... Não gosto nem de pensar nisso. A Clarinha, da fazenda dos Menezes, casou com um homem horroroso só porque ele era rico. Eu preferia virar freira.
Acompanhe amanhã o segundo capítulo ... (Obra de autoria de William C. Simas.)
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