CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA ESTÁ NO CENTRO DE POLÊMICA ENVOLVENDO RUMOR DE QUERER TIRAR DE NOSSA SENHORA APARECIDA O TÍTULO DE PADROEIRA DO BRASIL

NINGUÉM TOCA NA PADROEIRA


Foto: reprodução

Rumores envolvendo candidato à Presidência apoiado por setores evangélicos reacendem discussão sobre o título de Padroeira do Brasil

Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil, voltou ao centro de uma polêmica política que ganhou força nas redes sociais nos últimos dias.

A discussão envolve rumores de que um candidato à Presidência da República, que conta com o apoio de setores da bancada evangélica e de lideranças religiosas conservadoras, poderia defender a retirada do título de Padroeira do Brasil concedido à santa.

O nome que passou a ser associado à discussão é o de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República.

A possibilidade provocou forte reação principalmente entre católicos, que enxergam em Nossa Senhora Aparecida não apenas uma figura religiosa, mas um dos maiores símbolos da fé popular brasileira.

E a discussão vai muito além de uma disputa entre candidatos.

Ela coloca frente a frente duas forças religiosas que ganharam enorme espaço na política brasileira nas últimas décadas: de um lado, a tradição católica, historicamente predominante no país; de outro, setores evangélicos conservadores que ampliaram sua presença no Congresso Nacional e passaram a exercer influência cada vez maior sobre o debate político.

UMA IMAGEM QUE SE TORNOU SÍMBOLO DO BRASIL

A história de Nossa Senhora Aparecida começou em 1717, quando três pescadores encontraram uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição nas águas do Rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá, em São Paulo.

Primeiro apareceu o corpo da imagem. Em seguida, os pescadores encontraram a cabeça.

Depois do encontro, segundo a tradição católica, os pescadores lançaram novamente as redes e conseguiram uma quantidade extraordinária de peixes.

A pequena imagem passou a ser venerada e a devoção rapidamente se espalhou.

O que começou às margens de um rio se transformaria, ao longo dos séculos, em uma das maiores manifestações religiosas do Brasil.

Em 1930, o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.

Décadas depois, em 1980, o governo brasileiro instituiu o dia 12 de outubro como feriado nacional para o culto público e oficial à santa.

A legislação brasileira, portanto, não apenas reconhece o feriado como também menciona expressamente Nossa Senhora Aparecida como “Padroeira do Brasil”.

MILHÕES DE BRASILEIROS TÊM A SANTA COMO REFERÊNCIA DE FÉ

Todos os anos, milhões de peregrinos visitam o Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo.

São famílias inteiras, idosos, jovens, crianças e romeiros que percorrem quilômetros em demonstrações de fé, pagamento de promessas e agradecimentos.

Para muitos católicos, Nossa Senhora Aparecida está presente na própria história familiar.

É a santa que aparece em altares domésticos, igrejas, tatuagens, medalhas, imagens carregadas no peito e promessas feitas por gerações.

Por isso, a possibilidade de uma mudança em relação ao título de Padroeira do Brasil toca diretamente em um símbolo profundamente enraizado na cultura religiosa brasileira.

O DEBATE SOBRE O AVANÇO EVANGÉLICO NA POLÍTICA

É justamente nesse cenário que surge a discussão envolvendo setores evangélicos.

Nas últimas décadas, grupos evangélicos, especialmente aqueles ligados às correntes mais conservadoras, ampliaram sua participação na política brasileira.

Pastores passaram a ocupar cargos eletivos, igrejas passaram a atuar de maneira organizada nas eleições e a chamada bancada evangélica ganhou força no Congresso Nacional.

Esse crescimento também trouxe debates sobre o papel da religião nas decisões do Estado.

Dentro desse universo existem diferentes posições.

Nem todos os evangélicos defendem as mesmas ideias e seria incorreto atribuir a milhões de fiéis uma única visão política.

Mas também é fato que existem grupos religiosos que defendem uma participação muito mais intensa dos valores cristãos na política e que fazem oposição aberta a determinados símbolos, práticas e tradições do catolicismo.

É nesse ambiente que a discussão sobre Nossa Senhora Aparecida ganhou combustível.

SERIA POSSÍVEL MEXER NO TÍTULO?

A pergunta passou a circular nas redes sociais: um eventual governo apoiado por setores evangélicos poderia tentar retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil?

A discussão não surgiu completamente do nada.

Em 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli apresentou um projeto que pretendia modificar a legislação relacionada ao feriado de 12 de outubro.

A proposta previa substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

O projeto acabou arquivado em 2008.

Não existe, portanto, registro de que esse antigo projeto seja atualmente uma proposta de Flávio Bolsonaro.

Mas a existência dessa iniciativa no passado ajuda a explicar por que o assunto encontrou terreno fértil para voltar ao debate público.

FLÁVIO BOLSONARO NEGA

Flávio Bolsonaro negou que pretenda retirar Nossa Senhora Aparecida do título de Padroeira do Brasil.

O candidato afirmou que a informação não procede e declarou que não existe projeto de sua autoria com esse objetivo.

A GloboNews também corrigiu posteriormente uma informação divulgada sobre o assunto e pediu desculpas pela repercussão causada.

Isso significa que não há, neste momento, comprovação de que Flávio Bolsonaro esteja defendendo oficialmente a retirada do título.

Mas a negativa do candidato não encerra necessariamente o debate sobre a influência de setores religiosos dentro do campo político que o apoia.

A QUESTÃO QUE FICA ENTRE CATÓLICOS

É justamente aí que reside a preocupação de parte dos católicos.

A pergunta que passou a ser feita não é apenas se existe hoje um projeto formal para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.

É também até onde poderia chegar a influência de setores religiosos mais conservadores dentro de um eventual governo fortemente apoiado por lideranças evangélicas.

Alguns grupos evangélicos possuem posições historicamente críticas à veneração de imagens e à devoção católica aos santos e a Nossa Senhora.

Para esses segmentos, a prática católica de veneração de imagens é incompatível com sua interpretação da Bíblia.

Isso não significa que todos os evangélicos defendam qualquer mudança no título de Nossa Senhora Aparecida.

Mas ajuda a entender por que o tema provoca desconfiança entre alguns católicos quando aparece associado à disputa pelo poder político.

UMA DISPUTA QUE PODE SER MUITO MAIOR QUE UM TÍTULO

A polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida revela uma disputa que ultrapassa a questão jurídica do título de Padroeira do Brasil.

É uma discussão sobre identidade religiosa, influência política e o espaço que diferentes correntes cristãs pretendem ocupar no Estado brasileiro.

O Brasil continua sendo um país de maioria cristã, mas o equilíbrio entre católicos e evangélicos mudou significativamente ao longo das últimas décadas.

E a política percebeu isso.

Candidatos procuram pastores. Igrejas participam do debate eleitoral. Parlamentares se organizam em bancadas religiosas. E símbolos religiosos passam a aparecer cada vez mais no discurso político.

Nesse ambiente, Nossa Senhora Aparecida também acaba entrando na disputa.

ENTRE A NEGATIVA E A DESCONFIANÇA

Flávio Bolsonaro nega que pretenda retirar o título de Padroeira do Brasil.

Não há, até o momento, comprovação de que exista uma proposta atual do candidato com esse objetivo.

Ao mesmo tempo, a discussão sobre a influência de setores evangélicos conservadores na política brasileira é real e já faz parte do cenário político nacional.

Por isso, o rumor encontrou tanta repercussão.

Para milhões de católicos, Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma personagem religiosa.

É a Padroeira do Brasil.

É uma imagem encontrada por pescadores há mais de três séculos e que se transformou em símbolo de fé para gerações de brasileiros.

E talvez seja justamente por isso que qualquer discussão sobre seu título tenha potencial para provocar tanto barulho.

No Brasil das disputas políticas cada vez mais marcadas pela religião, a pequena imagem encontrada nas águas do Paraíba voltou a ocupar o centro da discussão.

Desta vez, não apenas nos altares e nas igrejas, mas também no campo político.

@spingrv

Polêmica_ Candidato ligado a setores evangelicos é acusado de defender que título de Nossa Senhora Aparecida seja retirado

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