BAIRRO DO ZUMBI, EM SÃO GONÇALO, PODE TER SIDO TERRITÓRIO QUILOMBOLA NO PASSADO
PESQUISAS HISTÓRICAS LEVANTAM A HIPÓTESE DE QUE A REGIÃO ONDE HOJE EXISTE O BAIRRO ZUMBI TENHA ABRIGADO UMA COMUNIDADE FORMADA POR NEGROS FUGITIVOS DE FAZENDAS DA REGIÃO
| Foto: Google Maps |
Uma pesquisa acadêmica realizada no Rio de Janeiro encontrou indícios que podem relacionar o atual bairro Zumbi, em São Gonçalo, à existência de uma antiga comunidade quilombola. A hipótese ainda precisa ser aprofundada por novas pesquisas históricas, mas documentos e referências do século XIX ajudam a colocar o local no mapa da resistência negra do município.
São Gonçalo carrega, em diferentes bairros e localidades, marcas de uma história que ainda está longe de ser completamente conhecida. Entre esses lugares está o bairro Zumbi, na região próxima ao Engenho Pequeno e ao Morro do Castro. O próprio nome da localidade chama atenção e pode esconder uma história relacionada à presença de populações negras e à resistência à escravidão.
Uma pesquisa de mestrado em História Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) levanta uma possibilidade especialmente significativa: a região onde hoje está o bairro Zumbi pode ter abrigado um quilombo formado por negros que fugiam das fazendas existentes nas proximidades.
A hipótese não significa que o bairro atual possa ser oficialmente classificado como um território quilombola histórico. Até o momento, não foi localizado um documento definitivo que comprove a existência de um quilombo exatamente naquele ponto. A própria pesquisa destaca a necessidade de novos estudos e de uma investigação mais aprofundada das fontes históricas.
UMA NOTÍCIA PUBLICADA EM 1885
Um dos elementos que ajudam a alimentar essa possibilidade está em uma publicação do jornal O Fluminense, de 29 de abril de 1885, localizada durante a pesquisa acadêmica.
A publicação fazia referência à presença de pessoas identificadas como “pretos Mina” em uma atividade de caça na região. Para o pesquisador, esse registro pode ser uma pista da existência de uma comunidade negra organizada naquele território.
O registro é particularmente importante porque ocorreu apenas três anos antes da assinatura da Lei Áurea, em um período no qual ainda existiam no Brasil pessoas submetidas à escravidão e também diversas formas de resistência e fuga.
A região do atual Zumbi ficava próxima de antigas propriedades agrícolas, entre elas áreas relacionadas ao Engenho Pequeno. Nesse contexto, a existência de matas e de propriedades rurais poderia ter favorecido a formação de comunidades de pessoas que haviam fugido da escravidão.
POR QUE O NOME ZUMBI CHAMA TANTA ATENÇÃO?
Outro elemento que desperta interesse dos pesquisadores é justamente o nome do bairro.
O pesquisador gonçalense Erick Bernardes já dedicou um estudo à origem e aos possíveis significados do nome Zumbi. A análise considera a origem africana do termo e também sua associação histórica à resistência negra.
A palavra possui raízes relacionadas às línguas bantas. Estudos linguísticos relacionam “zumbi” a termos como “nzumbi”, associados a ideias de espírito, morto-vivo ou entidade que permanece entre os vivos. Ao longo da história brasileira, porém, a palavra ganhou uma dimensão ainda mais forte por causa de Zumbi dos Palmares, um dos principais símbolos da resistência negra à escravidão.
É justamente essa combinação que torna o nome do bairro tão intrigante.
SERIA UMA REFERÊNCIA A ZUMBI DOS PALMARES?
Essa é outra pergunta que ainda não possui resposta definitiva.
Não há, até o momento, documentação suficiente para afirmar que o bairro recebeu seu nome diretamente em homenagem a Zumbi dos Palmares.
Uma possibilidade é que o nome tenha relação com a própria palavra de origem africana e, posteriormente, tenha adquirido uma associação mais direta com o líder de Palmares. Outra possibilidade é que a denominação tenha surgido justamente como referência à resistência negra.
O pesquisador Erick Bernardes interpreta o nome do bairro dentro dessa perspectiva de resistência, descrevendo o Zumbi como um lugar associado à ideia de gente batalhadora e com uma história ainda por revelar.
A SPINGRV LEVA A HIPÓTESE À ALERJ
Diante da possibilidade de que o atual bairro Zumbi esteja relacionado a uma antiga comunidade quilombola, a SpingRV Notícias decidiu levar adiante a investigação.
O material histórico e acadêmico localizado pela reportagem foi encaminhado ao deputado estadual Professor Josemar, que vem atuando na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) em questões relacionadas às relações raciais e à intolerância religiosa, inclusive integrando uma comissão voltada ao tema.
A intenção é que o parlamentar possa se debruçar sobre os documentos e referências já encontrados e, dentro de sua atuação, contribuir para que novas pesquisas sejam realizadas.
O objetivo não é transformar uma hipótese em verdade histórica antes que existam provas. Pelo contrário: a proposta é justamente investigar se há elementos suficientes para comprovar que o território do atual bairro Zumbi esteve ligado a uma comunidade quilombola no passado.
Caso novos documentos sejam encontrados, a descoberta poderá abrir uma importante frente de pesquisa sobre a formação histórica de São Gonçalo e sobre a presença da população negra no município antes e durante o período que antecedeu a abolição da escravidão.
UM POSSÍVEL TERRITÓRIO QUILOMBOLA SOB AS RUAS DO BAIRRO
Se novas pesquisas confirmarem os indícios encontrados, a história do Zumbi poderá ganhar uma dimensão completamente diferente.
Isso significaria que, muito antes de existir o bairro como conhecemos atualmente, aquela área pode ter sido ocupada por uma comunidade negra formada por pessoas que resistiram à escravidão e buscaram naquele território um lugar para viver em liberdade.
Em outras palavras, as ruas, casas e morros que hoje fazem parte da paisagem urbana de São Gonçalo podem estar sobre um território que, no século XIX, serviu de refúgio para pessoas que haviam rompido com o sistema escravista.
Por isso, é possível imaginar que o atual bairro Zumbi tenha se desenvolvido sobre uma área que um dia funcionou como um território quilombola, embora essa hipótese ainda precise ser comprovada pela historiografia.
SERIA UMA “NAÇÃO QUILOMBOLA”?
A expressão “nação quilombola” ajuda a dimensionar a importância que uma eventual descoberta teria para a história de São Gonçalo, mas precisa ser compreendida dentro do contexto histórico.
Quilombos não eram necessariamente “nações” no sentido moderno da palavra. Eram comunidades organizadas de pessoas negras, frequentemente formadas por fugitivos da escravidão, embora também pudessem reunir indígenas, pobres, libertos e outros grupos.
Alguns quilombos cresceram de maneira significativa, formando estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais próprias.
Por isso, caso a existência de um quilombo na região do atual Zumbi seja confirmada, será necessário descobrir qual era seu tamanho, quem vivia ali, como a comunidade se organizava, de onde vieram seus moradores e por quanto tempo permaneceu naquele território.
Essas respostas ainda não estão disponíveis.
UMA HISTÓRIA QUE PODE ESTAR ESCONDIDA
A possível origem quilombola do Zumbi transforma o bairro em um importante objeto de pesquisa histórica para São Gonçalo.
Mais do que explicar a origem de um nome, investigar o passado da localidade pode ajudar a compreender a própria formação da população negra do município e sua relação com as antigas fazendas, engenhos e áreas rurais gonçalenses.
A existência de registros históricos, somada aos indícios encontrados na pesquisa acadêmica, não permite afirmar que o bairro foi definitivamente um quilombo.
Mas permite fazer uma pergunta que merece ser investigada:
E se, muito antes de São Gonçalo crescer e se transformar na cidade que conhecemos hoje, o território onde está o bairro Zumbi já tivesse sido uma comunidade de negros que lutavam pela própria liberdade?
A SpingRV pretende acompanhar o desenvolvimento dessa investigação e os possíveis novos estudos que possam surgir a partir do material já levantado.
Até que novas evidências sejam encontradas, permanece a cautela histórica: o bairro Zumbi pode guardar em seu passado uma das histórias mais importantes da resistência negra em São Gonçalo — mas essa história ainda precisa ser comprovada.
@spingrv Zumbi - São Gonçalo, foi um Quilombo_
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