JOVEM DE 24 ANOS TIRA A PRÓPRIA VIDA APÓS SOFRER REJEIÇÃO DA FAMÍLIA POR SER GAY, RELATA PRIMA
ESTUDANTE DE DIREITO E PROFESSOR VOLUNTÁRIO DE INGLÊS TERIA ENFRENTADO COBRANÇAS E OFENSAS DENTRO DA PRÓPRIA FAMÍLIA POR SER GAY
Segundo a prima, o jovem vinha apresentando mudanças de comportamento e teria enviado uma mensagem de despedida horas antes de tirar a própria vida.
Uma cidade do interior de Minas Gerais foi palco da morte de um jovem de 24 anos, identificado nesta reportagem apenas como Matheus, nome fictício utilizado para preservar sua identidade. Estudante de Direito e professor voluntário de inglês, ele tirou a própria vida após um período de intenso sofrimento emocional.
O contexto que antecedeu a morte é relatado pela prima do jovem, que pediu anonimato. Segundo ela, Matheus enfrentava há algum tempo conflitos dentro da própria família relacionados à sua orientação sexual.
A familiar descreve o rapaz como uma pessoa dedicada, inteligente e generosa. Segundo seu relato, ele dava aulas de inglês gratuitamente para pessoas que não tinham condições de pagar e costumava ajudar quem precisava.
Ainda de acordo com a prima, entretanto, o ambiente familiar era muito diferente.
“Ele dava aulas de inglês para quem não podia pagar, ajudava todo mundo. Mas em casa, ele era tratado como se fosse um erro”, afirmou.
COBRANÇAS E REJEIÇÃO
A prima conta que Matheus era constantemente pressionado a arrumar uma namorada. Segundo ela, os familiares não aceitavam sua orientação sexual e faziam cobranças para que ele mudasse seu comportamento.
Entre os episódios relatados pela familiar está uma declaração que ela atribui à mãe do jovem. Segundo a prima, a mulher teria dito que preferia ter um filho bandido a ter um filho gay e que, se soubesse que ele seria homossexual, teria abortado.
A declaração é apresentada nesta reportagem como relato da prima, já que a mãe do jovem não concedeu entrevista para confirmar ou contestar a afirmação.
A familiar afirma ainda que Matheus nunca chegou a assumir um relacionamento com outro homem por medo de perder o amor e a aceitação da mãe.
Segundo ela, o jovem chegou a se apaixonar por um colega, mas recuava sempre que o sentimento se tornava mais intenso.
“NÃO CONSIGO DEIXAR DE SER GAY”
Nos últimos meses, a prima percebeu mudanças no comportamento do rapaz.
Segundo seu relato, Matheus teria emagrecido visivelmente, passado a se alimentar mal e evitado encontros sociais.
“Ele ficava no quarto, calado. A alegria que ele tinha sumiu”, contou.
Horas antes de morrer, segundo a prima, Matheus enviou a ela uma longa mensagem de despedida.
Na mensagem, ele teria escrito que não conseguia deixar de ser gay, apesar de ter tentado mudar.
“Não consigo deixar de ser gay, já tentei mudar”, teria escrito.
Segundo a familiar, Matheus relatou que havia recorrido inclusive a orações e promessas na tentativa de mudar sua orientação sexual.
“Ele dizia que se sentia um monstro, que pedia a Deus para tirar aquilo dele, mas que não adiantava”, afirmou a prima.
Na mesma mensagem, ainda segundo o relato, o jovem agradeceu pelo apoio recebido da familiar e pediu desculpas por não conseguir continuar.
“A CULPA É DE TODOS VOCÊS”
A morte provocou revolta na prima, que responsabiliza verbalmente a família pelo sofrimento vivido pelo jovem.
“Agora minha tia só chora, mas eu falei na cara dela: a culpa é de todos vocês, de toda a família. Palavra machuca, e ela matou o filho com as palavras dela”, declarou.
A afirmação representa a avaliação e a revolta da prima diante do que ela acompanhou, e não uma conclusão oficial sobre as circunstâncias ou a causa da morte.
O relato, entretanto, chama atenção para uma questão que ultrapassa a história de uma única família: o impacto que a rejeição, a humilhação e a tentativa de impor mudanças à orientação sexual podem provocar na vida de pessoas LGBTQIA+.
REJEIÇÃO FAMILIAR E SOFRIMENTO
A rejeição dentro da própria família pode assumir diferentes formas. Ela pode aparecer por meio de insultos, ameaças, cobranças, isolamento, constrangimentos ou tentativas de fazer com que uma pessoa esconda ou negue quem é.
No caso relatado pela prima, o jovem teria passado justamente por esse tipo de conflito dentro de casa.
A psicóloga clínica e especialista em saúde mental da população LGBTQIA+, Dra. Carla Mendes (CRP 04/521), explica que a família exerce papel importante na construção da segurança emocional de uma pessoa.
“O lar é o primeiro espaço de acolhimento. Quando esse lugar se torna palco de humilhações e repúdio, a pessoa pode internalizar que é indigna de amor”, explica.
A especialista ressalta ainda que a orientação sexual não é uma doença e não deve ser tratada como algo que precise ser corrigido ou eliminado.
Para ela, o acolhimento familiar pode representar uma importante proteção diante de situações de sofrimento emocional.
FAMÍLIA NÃO RESPONDEU
A reportagem tentou contato com a mãe de Matheus e com outros familiares mencionados no relato, mas não obteve retorno até a conclusão desta matéria.
Segundo a prima, a família está em luto e permanece reclusa.
Ela autorizou a divulgação de seu relato, mas pediu que o nome verdadeiro do jovem e a cidade onde o caso aconteceu não fossem publicados, para preservar sua memória e evitar novos conflitos familiares.
A morte de Matheus não permite, por si só, estabelecer uma conclusão sobre todos os fatores que contribuíram para sua decisão. O que existe é o relato de uma familiar próxima, que descreve um período de sofrimento marcado, segundo ela, pela rejeição e pelas cobranças relacionadas à orientação sexual do jovem.
Independentemente das circunstâncias individuais do caso, a história expõe uma realidade que ainda atinge muitas pessoas LGBTQIA+: para alguns jovens, o primeiro lugar onde deveriam encontrar proteção pode ser justamente o lugar onde enfrentam maior rejeição.
Matheus deixa, segundo sua prima, uma mensagem de despedida que ela guarda como lembrança de um jovem que tentou durante anos conciliar aquilo que sentia com aquilo que sua família esperava que ele fosse.
E a história também deixa uma pergunta difícil: quantas pessoas ainda estão sendo ensinadas a acreditar que existe algo de errado nelas simplesmente por serem quem são?
SE VOCÊ PRECISA DE AJUDA
Pessoas que estejam enfrentando sofrimento emocional intenso ou pensamentos de suicídio devem procurar ajuda imediatamente.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Também oferece atendimento por seus canais digitais.
Em situações de emergência ou risco imediato, procure um serviço de emergência ou ligue para o SAMU (192).
Receba notícias de Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro no Google Notícias
Seguir SpingRV no Google Notícias