BRASÍLIA: MÉDIUM É ACUSADA DE FORJAR PSICOGRAFIAS COM INFORMAÇÕES RETIRADAS DAS REDES SOCIAIS
DENÚNCIAS APONTAM QUE CARTAS ATRIBUÍDAS A PESSOAS MORTAS TERIAM SIDO PRODUZIDAS A PARTIR DE DADOS PUBLICADOS NA INTERNET; POLÍCIA CIVIL E MINISTÉRIO PÚBLICO INVESTIGAM O CASO
Dezenas de pessoas acusam a médium Maira Rocha de utilizar informações encontradas em redes sociais e outras fontes públicas para produzir cartas atribuídas a mortos. A PCDF e o MPDFT apuram as denúncias.
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Brasília — Uma investigação jornalística colocou sob suspeita o trabalho da médium Maira Rocha, responsável pela Casa de Caridade Inácio Daniel, no Distrito Federal. Dezenas de pessoas afirmam que cartas apresentadas como psicografias de familiares mortos teriam sido produzidas com informações encontradas previamente na internet.
As denúncias foram reveladas pelo Metrópoles após uma apuração que ouviu pessoas que procuraram a médium em busca de mensagens de parentes falecidos. Segundo os relatos, informações publicadas em perfis do Facebook, Instagram e outras fontes abertas apareceriam posteriormente nas cartas atribuídas aos mortos.
O caso deixou de ser apenas uma discussão entre frequentadores da instituição. A Polícia Civil do Distrito Federal confirmou a existência de um inquérito para investigar fatos relacionados ao trabalho da médium. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios também instaurou uma notícia de fato após receber denúncias contra Maira Rocha.
INFORMAÇÕES QUE JÁ ESTAVAM NA INTERNET
Um dos pontos que chamaram a atenção dos denunciantes foi a semelhança entre trechos das cartas e publicações feitas anteriormente pelos próprios familiares nas redes sociais.
Em um dos casos relatados pelo Metrópoles, uma carta atribuída à mãe de um homem reproduzia informações que apareciam em publicações antigas do Facebook. Entre elas estava uma lembrança familiar relacionada ao ensino de uma oração.
A família também identificou informações incorretas. A carta mencionava uma pessoa como integrante da família que, segundo os parentes, não correspondia à realidade.
Em outro episódio, a investigação apontou que informações utilizadas na elaboração de uma mensagem poderiam ter sido obtidas por meio de pesquisas na internet, inclusive em dados relacionados a uma empresa da família.
Para os denunciantes, a presença desses dados nas cartas não seria uma demonstração de comunicação espiritual, mas indicaria uma pesquisa prévia sobre a vida das pessoas que procuravam a médium.
O PESO DO LUTO
O caso envolve uma questão particularmente delicada: pessoas que procuram as psicografias geralmente estão vivendo um período de forte sofrimento emocional provocado pela perda de alguém próximo.
Os relatos reunidos na investigação apontam que algumas famílias inicialmente receberam as cartas com emoção, mas passaram a questionar seu conteúdo depois de comparar as mensagens com publicações antigas disponíveis na internet.
Em alguns casos, os familiares afirmam ter encontrado informações copiadas ou adaptadas de textos publicados anteriormente, além de erros sobre parentes, profissões e acontecimentos da vida dos mortos.
FEDERAÇÃO ESPÍRITA RECEBEU DENÚNCIAS
A investigação também ouviu uma fonte ligada à Federação Espírita do Distrito Federal, que confirmou ter recebido reclamações relacionadas ao trabalho de Maira Rocha.
A entidade ressaltou a importância de procurar instituições e trabalhos espíritas considerados sérios e destacou que questionamentos fazem parte do próprio processo de avaliação de práticas mediúnicas.
A discussão, portanto, não se limita à crença na existência ou não da comunicação com os mortos. O ponto central das denúncias é outro: se informações pessoais disponíveis publicamente estariam sendo utilizadas para produzir mensagens posteriormente apresentadas como psicografias.
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POLÍCIA CIVIL INVESTIGA
A Polícia Civil do Distrito Federal confirmou ao Metrópoles a existência de um inquérito instaurado na 11ª Delegacia de Polícia.
Segundo a corporação, a investigação apura fatos ocorridos no Núcleo Bandeirante em 2019. O registro da ocorrência foi realizado em setembro de 2025 e o procedimento permanece em andamento.
A própria polícia informou que, naquele inquérito específico, há uma vítima registrada.
O Ministério Público também passou a analisar as denúncias. O MPDFT instaurou uma notícia de fato depois de receber reclamações contra a médium.
OUTRAS DENÚNCIAS SURGIRAM
A investigação ganhou novos desdobramentos nos últimos dias.
Uma idosa que questionou a autenticidade de uma carta afirmou ter sido chamada de ladra pela médium durante uma transmissão em rede social e procurou a Polícia Civil para registrar uma ocorrência por calúnia.
O episódio também passou a fazer parte do conjunto de denúncias que envolvem a atuação de Maira Rocha.
Outra reportagem publicada neste domingo pelo Metrópoles afirma que seguidores da médium teriam utilizado redes sociais para atacar pessoas que passaram a questionar o trabalho dela. A publicação relata que a Polícia Civil investiga denúncias relacionadas a possíveis fraudes e coação, enquanto o Ministério Público também acompanha o caso.
FÉ, LUTO E RESPONSABILIDADE
Independentemente da crença de cada pessoa sobre a existência da psicografia, o caso chama atenção para uma questão que ultrapassa a religião: a utilização de informações pessoais disponíveis na internet em situações envolvendo pessoas fragilizadas pelo luto.
Uma fotografia publicada há anos, o nome de um familiar, uma profissão, uma lembrança ou até mesmo uma informação disponível em um registro público podem revelar muito sobre a vida de alguém.
Por isso, a investigação deverá determinar se houve apenas coincidências e interpretações equivocadas ou se, de fato, informações obtidas previamente foram utilizadas para produzir cartas apresentadas como mensagens de pessoas mortas.
Até o momento, as acusações não representam uma condenação. A investigação policial e a apuração do Ministério Público ainda estão em andamento, e a responsabilidade pelos fatos deverá ser definida pelas autoridades competentes.
As investigações estão em andamento.
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