POVO DE ISRAEL: FACÇÃO CRIADA NOS PRESÍDIOS DO RIO REÚNE ESTUPRADORES, FEMINICIDAS, E CRIMINOSOS REJEITADOS POR OUTRAS FACÇÕES
A FACÇÃO POVO DE ISRAEL, ATUAL APLICANDO GOLPES VIRTUAIS PARA SE MANTER DENTRO DO SISTEMA PENITENCIARIO
Grupo surgiu em 2004, reúne presos rejeitados por outras facções e se especializou em extorsões telefônicas, principalmente no golpe do falso sequestro.
A facção criminosa Povo de Israel (PVI), também conhecida como “Inimigos dos Inimigos” ou “Portal 001”, surgiu dentro do sistema penitenciário do Rio de Janeiro e passou a ampliar sua influência entre os presídios do estado.
Diferentemente de organizações como Comando Vermelho e Terceiro Comando Puro, o PVI não nasceu a partir do domínio de territórios para exploração do tráfico de drogas. Sua origem está diretamente ligada à dinâmica interna dos presídios.
O grupo surgiu por volta de 2004, no Complexo Penitenciário de Água Santa, onde funcionava o Presídio Ary Franco. A organização passou a reunir detentos que eram rejeitados, expulsos ou não tinham espaço em outras facções.
Entre os presos associados ao grupo estão criminosos condenados ou investigados por crimes de grande repercussão, incluindo estupros, feminicídios e outros delitos considerados graves dentro da população carcerária. Também foram relatadas entre seus integrantes pessoas que, por serem homossexuais ou travestis, enfrentavam rejeição ou segregação dentro de outras estruturas criminosas.
Essa característica está relacionada à própria origem do PVI dentro do sistema penitenciário e não significa, evidentemente, que orientação sexual tenha qualquer relação com criminalidade.
UMA FACÇÃO SEM TERRITÓRIO
Uma das principais diferenças do Povo de Israel em relação às grandes facções do Rio é justamente a ausência, historicamente, de domínio territorial sobre comunidades.
O grupo passou a concentrar sua atuação em crimes praticados de dentro das unidades prisionais, utilizando principalmente telefones celulares para realizar extorsões.
Entre os golpes atribuídos à organização está o conhecido “falso sequestro”, no qual criminosos ligam para vítimas afirmando que um familiar foi sequestrado e exigem dinheiro para supostamente libertá-lo.
O método permite que criminosos presos consigam atuar fora dos muros das unidades sem necessariamente precisar controlar uma área de tráfico.
R$ 70 MILHÕES EM DOIS ANOS
A dimensão financeira da organização chamou a atenção das autoridades.
Investigações da Polícia Civil do Rio apontaram que o Povo de Israel movimentou aproximadamente R$ 70 milhões em dois anos por meio de atividades criminosas, incluindo extorsões relacionadas ao golpe do falso sequestro. A investigação também identificou mecanismos utilizados para lavagem do dinheiro obtido pelo grupo.
Em outubro de 2024, a Polícia Civil deflagrou a Operação 13 Aldeias, mirando integrantes da organização e pessoas suspeitas de colaborar com o esquema.
Foram expedidos 44 mandados de busca e apreensão, além do bloqueio de contas e ativos financeiros de investigados. Cinco policiais penais também foram alvo de medidas de afastamento por suspeita de envolvimento com a organização.
INFLUÊNCIA DENTRO DOS PRESÍDIOS
Segundo informações divulgadas durante as investigações, o PVI chegou a exercer influência em 13 unidades prisionais do estado, alcançando cerca de 18 mil detentos, número correspondente a aproximadamente 42% da população carcerária mencionada pela Secretaria de Administração Penitenciária na época.
As unidades sob influência do grupo são chamadas pelos próprios presos de “aldeias”.
O crescimento chamou a atenção das autoridades justamente porque uma organização que nasceu como uma espécie de agrupamento de presos rejeitados por outras facções passou a desenvolver uma estrutura capaz de gerar milhões de reais por meio de crimes praticados à distância.
DOS PRESÍDIOS PARA AS TELEFONIAS
O PVI mostra uma transformação na maneira como organizações criminosas podem atuar.
Sem precisar controlar uma favela ou disputar diretamente territórios com outras facções, criminosos conseguem utilizar celulares para escolher vítimas, fazer ameaças, aplicar golpes e movimentar dinheiro.
O falso sequestro é um dos exemplos mais conhecidos desse modelo.
A vítima recebe uma ligação inesperada. Do outro lado, alguém afirma estar com um familiar e exige pagamento imediato. O desespero provocado pela ligação é justamente o que faz o golpe funcionar.
De dentro das cadeias, os criminosos conseguem alcançar pessoas que estão a quilômetros de distância.
O fenômeno fez com que o Povo de Israel passasse a ser tratado pelas autoridades como uma organização criminosa com características diferentes das grandes facções tradicionalmente conhecidas no estado.
A facção nasceu dentro dos presídios, cresceu entre presos rejeitados por outras organizações e encontrou nos telefones celulares uma maneira de transformar as grades das cadeias em um ponto de partida para crimes praticados contra milhares de pessoas fora delas.
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