VERÔNICA COSTA, A “MÃE LOIRA DO FUNK”, É PRESA NO RIO APÓS CONDENAÇÃO POR TORTURA CONTRA O EX-MARIDO

 Ex-vereadora foi localizada em Petrópolis após ser considerada foragida; Justiça determinou cumprimento de pena de 10 anos e 8 meses em regime fechado.

Foto: reprodução 


A empresária e ex-vereadora do Rio de Janeiro Verônica Chaves de Carvalho Costa, conhecida nacionalmente como “Mãe Loira do Funk”, foi presa na noite desta quinta-feira (24), na Região Serrana do Rio. A prisão ocorreu após a Justiça determinar o cumprimento definitivo da pena de 10 anos e oito meses de prisão pela condenação por tortura contra o ex-marido, Márcio Costa.

Verônica foi localizada por agentes da Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (DC-Polinter) em uma casa no Vale das Videiras, em Araras, distrito de Petrópolis. Ela havia passado a ser considerada foragida depois que policiais foram a um endereço ligado a ela na Barra da Tijuca para cumprir o mandado de prisão, mas não a encontraram.

A prisão encerra, pelo menos neste momento, uma longa disputa judicial iniciada há mais de 15 anos, quando Márcio Costa denunciou ter sido submetido a uma sessão de violência que, segundo as investigações e posteriormente a condenação judicial, configurou crime de tortura.

CASO COMEÇOU EM 2011

O episódio que levou à condenação ocorreu em fevereiro de 2011, quando Verônica ainda era casada com Márcio Costa.

Segundo o relato apresentado pela vítima à Polícia Civil, ele teria sido mantido preso dentro da residência do casal e submetido a agressões durante aproximadamente 20 horas.

A investigação apontou que Márcio teria sido amarrado e agredido e que substâncias químicas teriam sido utilizadas contra ele. Segundo informações reunidas no processo, ele também teria sido atingido por líquido que provocou lesões e teria sido ameaçado com a possibilidade de ser incendiado.

Na época, Márcio conseguiu escapar durante um momento de distração dos envolvidos. Ele teria pulado pela janela e procurado ajuda de vizinhos.

O empresário chegou a ser internado e, segundo reportagens da época, permaneceu hospitalizado por cerca de dez dias. A investigação também registrou a realização de exames e a coleta de materiais na residência do casal.

Ainda em 2011, a Polícia Civil indiciou Verônica por tortura e cárcere privado. Além dela, foram indiciados quatro familiares: dois irmãos, um cunhado e o padrasto.

Naquele momento, Verônica negou as acusações.

Ela afirmou que Márcio fazia uso de drogas e que era agressivo com ela. A ex-vereadora sustentou que o então marido teria chegado à residência já machucado e que os ferimentos poderiam estar relacionados a uma dívida com traficantes.

Em entrevista divulgada na época, Verônica também afirmou que a acusação feita contra ela era uma reação do ex-marido.

O QUE A JUSTIÇA CONSIDEROU COMPROVADO

O processo avançou durante os anos seguintes e resultou em condenação.

A primeira condenação ocorreu em 2019. Naquele momento, a pena estabelecida para Verônica era de cinco anos e dez meses de prisão.

O Ministério Público recorreu da decisão.

Em 2023, a Segunda Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro reformou a sentença e aumentou a pena para 10 anos e oito meses de prisão, com início do cumprimento em regime fechado.

Segundo informações do processo reproduzidas pelo Superior Tribunal de Justiça, o conjunto probatório analisado pelas instâncias anteriores incluía laudos técnicos, fotografias e depoimentos.

O STJ registrou que o Tribunal de origem havia entendido que as condutas não tinham como único objetivo provocar lesões ou restringir a liberdade da vítima. Segundo a decisão, havia elementos indicando que as agressões teriam sido praticadas com a finalidade de obter informação, declaração ou confissão mediante sofrimento físico e mental.

STJ TAMBÉM ANALISOU O CASO

A defesa de Verônica continuou recorrendo depois da decisão do Tribunal de Justiça.

Em 2025, o Superior Tribunal de Justiça analisou um agravo regimental relacionado a um habeas corpus apresentado em favor da ex-vereadora.

Entre os argumentos apresentados pela defesa estava a alegação de incompetência da Justiça estadual e a contestação da existência do elemento subjetivo específico exigido para a caracterização do crime de tortura.

O STJ, porém, negou provimento ao recurso por unanimidade.

A Sexta Turma considerou, entre outros pontos, que uma alteração na conclusão das instâncias anteriores sobre a intenção específica relacionada ao crime exigiria novo exame aprofundado das provas, o que não poderia ser feito naquela via processual.

O acórdão também registra que o Tribunal de origem havia apontado um conjunto de provas formado por laudos técnicos, fotografias e prova oral.

O PROCESSO CHEGA AO FIM

Com o trânsito em julgado da condenação, ou seja, quando não havia mais recurso capaz de impedir o cumprimento da pena, a Justiça determinou a prisão de Verônica.

A ordem foi expedida pela juíza Daniele Lima Pires Barbosa, da 16ª Vara Criminal da Capital.

A Polícia Civil esteve inicialmente em um endereço ligado à ex-vereadora na Barra da Tijuca, mas não conseguiu localizá-la.

A partir daí, Verônica passou a ser procurada.

Segundo a Polícia Civil, o trabalho de inteligência da DC-Polinter levou os agentes até a Região Serrana, onde a ex-vereadora foi encontrada e presa.

A Polícia Rodoviária Federal também teria colaborado com o monitoramento de um dos veículos utilizados durante o deslocamento do grupo.

OUTRAS TRÊS PESSOAS FORAM PRESAS

A operação não terminou com a prisão de Verônica.

Outras três pessoas relacionadas ao processo também foram presas: Bruno Chaves Ribeiro, irmão da ex-vereadora; Tatiane Chaves Ribeiro, irmã de Verônica; e Bruno Marcelo Bahia Marques, marido de Tatiane e cunhado da empresária.

Bruno Chaves Ribeiro também foi condenado a 10 anos e oito meses de prisão.

Um quinto condenado, Sebastião de Oliveira Evangelista, padrasto de Verônica, continua sendo procurado pela Polícia Civil.

Os cinco aparecem como corréus no processo criminal analisado pelo Superior Tribunal de Justiça.

COMO TERIA OCORRIDO A TORTURA

De acordo com o relato apresentado por Márcio Costa e informações reunidas durante a investigação, a violência teria ocorrido dentro da residência do então casal.

A vítima relatou ter sido amarrada e mantida em cárcere durante horas.

Também afirmou ter sido agredida e submetida a ameaças.

Entre os elementos descritos nas reportagens sobre o processo estão o uso de inseticida no rosto e o derramamento de combustível sobre o corpo de Márcio, acompanhado de ameaça de que ele seria queimado.

Segundo o relato apresentado no processo, os envolvidos queriam obter informações de Márcio.

Reportagem de O Dia afirma que os familiares questionavam a vítima sobre o paradeiro de dinheiro relacionado à campanha eleitoral de Verônica. A publicação também informa que Márcio teria conseguido escapar pela janela e procurado ajuda de vizinhos.

É importante destacar que essas informações devem ser compreendidas dentro do contexto da investigação, das acusações apresentadas no processo e da decisão judicial que resultou na condenação definitiva.

A defesa de Verônica sempre contestou a versão apresentada pelo ex-marido.

VERÔNICA DIZ QUE JUSTIÇA ERROU

Depois de ser presa, Verônica Costa voltou a negar que seja criminosa.

Ao chegar à Cidade da Polícia, no Jacarezinho, Zona Norte do Rio, ela afirmou a jornalistas que não era “bandida”, “marginal” ou “homicida”.

A ex-vereadora declarou que considera ter sido vítima de um erro judicial e afirmou estar triste e sem acreditar no que estava acontecendo.

Verônica também afirmou que já havia passado por uma situação em que uma arma teria sido apontada para sua cabeça.

“Eu sempre admirei o Judiciário. Estou triste, sem acreditar”, declarou.

A defesa de Verônica contestou as acusações ao longo do processo e apresentou recursos aos tribunais.

Em 2025, o STJ chegou a analisar argumentos defensivos relacionados à competência da Justiça e à caracterização do crime de tortura, mas manteve a situação processual existente naquele momento.

MÁRCIO COSTA DIZ QUE PRISÃO TRAZ ALÍVIO

Depois da prisão da ex-mulher, Márcio Costa se manifestou nas redes sociais.

Ele afirmou que não comemorava a prisão, mas que sentia alívio depois de anos esperando pelo desfecho judicial.

O ex-marido de Verônica declarou que carregou durante anos as consequências do episódio e afirmou que a decisão representava o encerramento de uma longa espera.

QUEM É VERÔNICA COSTA

Muito antes de se tornar personagem de um processo criminal de grande repercussão, Verônica Costa já era uma figura conhecida do funk carioca.

Ela ganhou projeção nacional nos anos 1990 através da Furacão 2000, uma das principais empresas e marcas do funk do Rio de Janeiro.

Conhecida como “Mãe Loira do Funk”, Verônica participou de programas e eventos ligados ao gênero musical.

Depois da separação de Rômulo Costa, fundador da Furacão 2000 e com quem teve dois filhos, ela seguiu carreira própria no meio artístico e empresarial.

A entrada na política ocorreu no início dos anos 2000.

CARREIRA POLÍTICA

A Câmara Municipal do Rio de Janeiro registra Verônica Costa como vereadora em cinco legislaturas: 6ª, de 2001 a 2004; 7ª, de 2005 a 2008; 9ª, de 2013 a 2016; 10ª, de 2017 a 2020; e 11ª, de 2021 a 2024.

Ela passou por diferentes partidos durante a carreira política, incluindo PL, PMDB, MDB, DEM, PR e Republicanos.

A própria Câmara registra que Verônica nasceu no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1974.

Durante sua trajetória parlamentar, apresentou projetos relacionados principalmente a cultura, juventude e políticas voltadas às mulheres.

Entre as iniciativas de sua autoria está a Lei nº 8.283/2024, que criou o Programa Cuidar Menina/Mulher, destinado à distribuição de itens de higiene menstrual para adolescentes da rede pública municipal.

Também aparece como autora ou coautora de normas relacionadas à proteção e aos direitos das mulheres.

UMA CONTRADIÇÃO QUE MARCA A TRAJETÓRIA

A prisão de Verônica Costa ganha uma dimensão ainda maior porque ocorre após uma longa carreira pública marcada justamente pela atuação em temas relacionados às mulheres.

A Câmara Municipal registra participação da ex-vereadora em iniciativas legislativas relacionadas ao combate à violência contra a mulher, proteção e políticas públicas para esse segmento.

Ao mesmo tempo, a condenação criminal que resultou em sua prisão está relacionada a um episódio de violência contra seu então marido.

São fatos distintos e devem ser tratados separadamente: a atuação parlamentar registrada pela Câmara não altera o resultado do processo criminal, assim como a condenação não apaga os projetos e atividades legislativas documentados durante sua passagem pelo Legislativo.

O QUE ACONTECE AGORA

Com a condenação definitiva e a prisão realizada, Verônica deverá cumprir a pena determinada pela Justiça.

A sentença estabeleceu 10 anos e oito meses de prisão, inicialmente em regime fechado.

O processo criminal já passou por diferentes instâncias judiciais e chegou ao Superior Tribunal de Justiça. Em 2025, a Sexta Turma do STJ negou, por unanimidade, o agravo regimental apresentado pela defesa no habeas corpus analisado naquele julgamento.

A situação do padrasto de Verônica, Sebastião de Oliveira Evangelista, é diferente neste momento: ele continua sendo procurado pelas autoridades.

UMA HISTÓRIA QUE COMEÇOU HÁ 15 ANOS E AGORA CHEGA À PRISÃO

O caso envolvendo Verônica Costa começou em 2011, quando uma denúncia de violência deu origem a uma investigação policial.

Passaram-se anos entre a denúncia, a primeira condenação, os recursos, a revisão da pena pelo Tribunal de Justiça, as discussões no Superior Tribunal de Justiça e o encerramento definitivo da possibilidade de recurso.

Em 24 de setembro de 2026, a história chegou a um novo capítulo: a “Mãe Loira do Funk”, que durante duas décadas ocupou uma cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e se tornou uma das figuras conhecidas do funk carioca, foi localizada na Região Serrana e presa para começar a cumprir a pena estabelecida pela Justiça.

O caso agora deixa de ser apenas uma longa batalha judicial e passa para a fase de execução da condenação.

A prisão é resultado de uma condenação criminal definitiva por tortura contra Márcio Costa, enquanto Verônica continua sustentando que houve erro judicial e negando a prática do crime.

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