CORAÇÃO ESCRAVO (CAP. 2) | O retorno de Eduardo

CORAÇÃO ESCRAVO (CAP. 2)



No dia seguinte, Eduardo acordou cedo e, após o café, foi até a varanda. Enquanto observava a fazenda, ouviu o estalar de um chicote vindo dos fundos da casa-grande. Atrás da residência havia um tronco de castigo e uma pequena porta que dava acesso ao porão, utilizado como senzala da fazenda. Os demais escravizados já haviam seguido para seus afazeres, mas Justino permanecia preso ao tronco, sendo açoitado pelo capataz, que também exercia a função de capitão do mato.

Eduardo deu a volta pela casa, observou a cena por alguns instantes e, sem dizer uma palavra, retornou ao interior da residência. O coronel Augusto ainda tomava seu desjejum.

Eduardo: Pai... Por que Justino está sendo castigado?

O coronel virou-se lentamente para o filho. A pergunta pareceu surpreendê-lo.

Coronel Augusto: Sente-se. Não gosto de conversar com alguém em pé enquanto estou sentado.



 Dona Carlota acompanhava a conversa em silêncio. Assim que o filho se acomodou à mesa, aproximou dele uma tigela com pedaços de bolo.

Coronel Augusto: Esse escravo precisa aprender a ser mais cuidadoso. Mandei que fosse à venda do seu Bento comprar mantimentos e ele perdeu parte do dinheiro pelo caminho.

Eduardo: Na França, pai... esses assuntos são tratados de outra maneira.

Coronel Augusto: Eu sei, meu filho. Mas espero que essas ideias insanas de libertar essa gente nunca cheguem até aqui. Que fiquem por aquelas bandas. Essas novidades não servem para estes "brazis".

O coronel levantou-se. Antes de sair, lançou um olhar firme para Maria Sábia, que aguardava alguma ordem, e retirou-se.

Carlota esperou alguns instantes.

Carlota: Você não deveria falar desses assuntos com seu pai. Ainda não percebeu que ele não gosta?

Eduardo deu apenas um leve sorriso.

Eduardo: Eu apenas disse que, na França, os negros já não são castigados com açoites.




Na parte da tarde, Eduardo terminava de se arrumar em seu quarto quando Glorinha apareceu à porta.

Glorinha: Posso entrar, meu irmão?

Eduardo sorriu em resposta, continuando a ajeitar o paletó diante do espelho.

Glorinha: Vai à cidade? Glorinha: Vai à cidade?

Eduardo: Estou pensando em ir.

Enquanto prendia o relógio de bolso ao colete, ouviu a irmã perguntar:

Glorinha: Me leva?

Eduardo: Para quê?

Glorinha: Ah... ando tão presa aqui dentro. Queria passear, ver as pessoas...

Eduardo: Vá com sua mucama.

Glorinha: Mamãe não vai deixar.

Eduardo: Deixa, sim... se tiver uma boa desculpa.

Glorinha: Mas eu não tenho nenhuma.

Eduardo pegou um pequeno papel sobre a escrivaninha e entregou à irmã.

Eduardo: Tome. Vá ao consultório do doutor Arquimedes buscar este remédio para mim. Pronto. Agora você já tem um motivo.

Glorinha abraçou rapidamente o irmão.

Em seguida, Eduardo chamou:

Eduardo: Maria Sábia!

A escravizada apareceu quase imediatamente.

Maria Sábia: O senhor chamou?

Eduardo: Leve Glorinha para tomar a fresca e, depois, passem no consultório do doutor Arquimedes. Ela está levando a receita do remédio de que preciso.

Maria fez uma discreta reverência.

As duas deixaram o quarto.



Algum tempo depois, caminhavam pelas ruas de pedra próximas ao Largo do Paço.

Ao dobrarem uma rua estreita, encontraram Damião.

Ele empurrava um tonel vazio, depois de despejar os dejetos da casa.

Estava coberto de sujeira, suava e usava apenas uma calça de algodão.

Maria Sábia entregou a sombrinha a Glorinha e aproximou-se dele.

Maria Sábia: Cansado?

Damião sorriu com ironia.

Damião: Não... Eu adoro carregar as fezes da casa.

Sem querer, seus olhos encontraram os de Glorinha.

Ela sustentou o olhar por um breve instante.

Depois abaixou a cabeça.

Damião seguiu seu caminho, envergonhado da própria condição.

Quando ele já estava distante, Glorinha voltou-se para Maria.

Glorinha: Você acredita que um dia os negros serão livres?



Maria Sábia: Por que essa pergunta, sinhazinha?

Glorinha: Acho que o mundo seria diferente... Fico tentando imaginar como seria.

Maria caminhou alguns passos antes de responder.

Maria Sábia: É uma esperança... Mas seu pai não gostaria de ouvir uma conversa dessas. Seu irmão disse que, na França, até homem branco casa com mulher negra.

Glorinha sorriu.

Glorinha: E você? Nunca sonhou viver como uma sinhá?

Maria riu discretamente.

Maria Sábia: Sonhar não custa.

Glorinha: Não teve uma negra que se casou com um fidalgo lá em Minas?

Maria Sábia: Teve?

Glorinha: Chamava-se Xica da Silva. Dizem que viveu como uma grande dama.

Na volta para casa, Glorinha e Maria Sábia caminhavam pela movimentada Rua do Ouvidor.

Ao passarem por uma pequena travessa, uma porta se abriu.

De dentro dela saiu Eduardo.

Ele ajeitou o paletó, colocou o chapéu e olhou discretamente para os lados.

Antes que a porta se fechasse, uma bela mulher apareceu à soleira. Vestia um elegante vestido escuro e sorriu para Eduardo.


 Maria Sábia reconheceu imediatamente aquele lugar.

Era uma casa de tolerância frequentada por homens da alta sociedade.

As duas trocaram um olhar de espanto.

Nenhuma delas imaginava que Eduardo pudesse frequentar um lugar daqueles.

Horas depois, já de volta à fazenda, Glorinha foi até o quarto do irmão levar o remédio.

Sentou-se junto à escrivaninha e colocou o frasco sobre a mesa.

Glorinha: Como foi o passeio?

Eduardo: Foi bom. Encontrei alguns amigos dos tempos de estudo.

Glorinha: Só isso?

Eduardo sorriu discretamente.

Eduardo: Caminhei pelo Largo do Paço.

Glorinha permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então perguntou:

Glorinha: Eduardo... É verdade que, na França, existem homens brancos casados com mulheres negras?

Eduardo: Existem, sim. Muito mais do que você imagina.

Fez uma breve pausa.

Eduardo: Também há muitas mulheres negras vivendo da prostituição.

Glorinha inclinou levemente a cabeça.

Glorinha: E você... Já conheceu alguma dessas damas?

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