CORAÇÃO ESCRAVO - O castigo | Capitulo 3
CAPÍTULO 3 – O CASTIGO
Eduardo olhou para a irmã durante alguns instantes antes de responder.
Eduardo _ Já conheci, sim.
Glorinha pareceu surpresa.
Glorinha _ E como elas eram?
Eduardo sorriu.
Eduardo _ Eram mulheres como qualquer outra.
Glorinha abaixou os olhos.
Eduardo _ Você faz perguntas difíceis para uma moça da sua idade.
Ela levantou-se.
Glorinha _ Boa noite, meu irmão.
Assim que ela saiu, Eduardo permaneceu olhando pela janela.
Pensava na França.
Pensava também em tudo o que encontrara desde que voltara ao Brasil.
Na manhã seguinte, os escravizados já trabalhavam na lavoura.
Damião manejava a enxada em silêncio.
Tenório aproximou-se.
Tenório _ Ainda pensando naquela conversa da liberdade?
Damião continuou trabalhando.
Damião _ Se existe um lugar onde negro vive como homem... por que aqui tem que ser diferente?
Tenório olhou ao redor para ter certeza de que ninguém ouvia.
Tenório _ Porque aqui nós nascemos escravos.
Damião balançou a cabeça.
Damião _ Eu não nasci escravo.
Nasci criança.
Os dois permaneceram calados.
Ao longe, o capataz observava.
Na casa-grande, Glorinha costurava perto da janela.
Carlota entrou.
Carlota _ Sua tia escreveu.
Glorinha sorriu.
Carlota entregou uma carta.
Carlota _ O filho do barão deve chegar dentro de poucos dias.
Glorinha perdeu o sorriso.
Carlota percebeu.
Carlota _ Você não parece feliz.
Glorinha dobrou lentamente a carta.
Glorinha _ Mamãe... toda moça é obrigada a casar?
Carlota suspirou.
Carlota _ Algumas perguntas, não tem resposta, minha filha.
Na parte da tarde, um grito ecoou pela fazenda.
Todos interromperam o trabalho.
Justino havia tentado fugir.
Não conseguiu atravessar a mata.
Foi capturado pelo capitão do mato e arrastado de volta.
O coronel Augusto saiu da casa-grande.
Observou o escravizado ajoelhado.
Coronel Augusto _ Já é a segunda vez.
O capataz aguardava a ordem.
Coronel Augusto olhou para todos os escravizados.
Queria que servissem de exemplo.
Coronel Augusto _ Cinquenta chibatadas.
Eduardo acabava de chegar ao terreiro.
Eduardo _ Pai... isso vai matar esse homem.
Coronel Augusto virou-se lentamente.
Coronel Augusto _ Homem?
Fez uma breve pausa.
Coronel Augusto _ Enquanto estiver debaixo deste teto, não esqueça que quem manda nesta fazenda sou eu.
Eduardo permaneceu imóvel.
O chicote voltou a cortar o ar.
Glorinha, da varanda, levou a mão à boca.
Maria Sábia fechou os olhos.
Damião apertou os punhos.
Pela primeira vez, desejou fazer alguma coisa.
Mas não podia.
Naquela noite, a senzala permanecia em silêncio.
Justino respirava com dificuldade.
Maria Sábia entrou escondida carregando um pequeno pote.
Damião levantou-se.
Damião _ O que é isso?
Maria ajoelhou-se.
Maria Sábia _ Banha e ervas.
Minha mãe dizia que ajuda a cicatrizar.
Enquanto passava o remédio nas costas feridas de Justino, Damião observava.
Depois de alguns instantes, falou baixinho.
Damião _ Maria... Você acredita que Deus fez branco e negro para viverem desse jeito?
Maria continuou o curativo.
Demorou para responder.
Maria Sábia _ Não sei o que Deus queria.
Só sei o que os homens fizeram.
Damião permaneceu em silêncio.
Lá fora, o vento balançava as árvores da fazenda.
Naquela noite, pela primeira vez, a ideia de liberdade deixou de ser apenas uma curiosidade.
Passou a ser um desejo.
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