CORAÇÃO ESCRAVO | CAPÍTULO 4 - Um pretendente para Glorinha

CAPÍTULO 4 - Um pretendente para Glorinha




Na hora do jantar, todos estavam reunidos na sala de jantar. O coronel, como de costume, ocupava sempre o mesmo lugar à mesa.

Coronel Augusto — Filha, você já deve ter recebido a carta de sua tia. O filho do barão está a caminho e deve nos fazer uma visita ainda esta semana. Nossas famílias têm conversado bastante, e o rapaz já está em idade de se casar.

Glorinha ouviu em silêncio, mas seu semblante estava longe de demonstrar felicidade.

O coronel lançou um olhar para a filha. Ela apenas abaixou a cabeça e levou mais uma colher de comida à boca.

Maria Sabiá permanecia de pé, pronta para servir, caso fosse chamada. Criada desde menina naquela casa, conhecia Glorinha como ninguém e percebeu imediatamente que a jovem estava abatida.



Naquela noite, antes de dormir, Glorinha fez o que costumava fazer quase todos os dias: pediu que Maria Sabiá fosse até seu quarto. Era sempre uma desculpa para ter alguém com quem conversar e desabafar.

Maria entrou, entregou a badeja nas mãos de Glorinha, e disse:

Maria Sabiá — Notei que a senhora não ficou feliz com a notícia da visita do filho do barão.

Glorinha pegou a xícara, levou-a lentamente aos lábios, olhou para Maria e, antes mesmo de responder, as lágrimas escorreram por seu rosto.

Maria teve vontade de abraçá-la, mas conteve o impulso. Temia estar ultrapassando um limite que lhe poderia custar caro.

Foi então que Glorinha segurou sua mão.

Glorinha — Ai, Maria... O que será de mim? Eu não queria deixar esta casa. E muito menos me casar com alguém por quem não sinto amor.

Maria segura a mão da sinhazinha.

Maria Sabiá — Ah, sinhazinha... Não fique assim. Às vezes o amor vem com o tempo. Se ele for um homem bom, quem sabe a senhora não aprende a gostar dele?



Na manhã seguinte, Maria Sabiá voltava da venda de Bento. Havia saído logo ao amanhecer para comprar mantimentos para a casa-grande.

No caminho, encontrou Damião.

Damião era um escravo tigre. Assim eram conhecidos os escravizados encarregados de transportar os dejetos da casa-grande e da senzala para serem despejados longe da fazenda.

Era considerado um dos trabalhos mais degradantes impostos aos escravizados. Por onde passavam, muitos se afastavam por causa do forte mau cheiro.

Maria observou Damião por alguns instantes e perguntou, curiosa:

Maria Sabiá — Por que você não cheira tão mal quanto os outros?

Damião deu um sorriso tímido.

Damião — O mínimo que posso fazer é tomar um bom banho depois que despejo tudo no rio. E, quando encontro alguma erva cheirosa pelo caminho, esfrego no corpo.

Maria sorriu.

Maria Sabiá — Hum... escravo cheio das vaidades...

Os dois seguiram caminhando em silêncio por um trecho da estrada de terra.

Depois de algum tempo, Maria voltou a falar.

Maria Sabiá — Ai, ontem fiquei com tanta pena da sinhazinha Glória. A pobre não está nada feliz com essa história de casamento. Acho que nem gostou da ideia desse rapaz que vem para conhecê-la.

Damião — Mas ela já tem pretendente?

Maria Sabiá — Assim... pretendente mesmo, ainda não. Mas parece que as famílias já combinaram tudo. Pelo que ouvi, ele chega hoje à noite ou, no mais tardar, amanhã pela manhã.

Damião ficou pensativo por alguns instantes.

Então perguntou:

Damião — Maria... o coronel nunca tentou nada com você?

Ela o encarou, sem entender.

Maria Sabiá — Tentou... como assim?

Damião — Ah, Maria... não se faça de desentendida. Você sabe do que estou falando.

Maria franziu a testa.

Maria Sabiá — Não! Claro que não!

Damião — Você não acha isso estranho?

Maria Sabiá — Talvez ele simplesmente não me ache bonita.

Damião balançou a cabeça.



Damião — Disso eu duvido. Quase todas as escravas da senzala já passaram pelas mãos dele. Pensei que com você tivesse sido a mesma coisa...

Ela o interrompeu imediatamente.

Maria Sabiá — Não, Damião. Nunca. Ele nunca sequer encostou em mim.

Na manhã seguinte, um moleque de recados surgiu correndo pela estrada da fazenda.



Moleque — Coronel Vasconcelos! Coronel Vasconcelos!

O coronel, que lia o jornal na varanda, abaixou lentamente as folhas.

Coronel Augusto — O que foi, moleque? O que aconteceu?

O garoto entregou um bilhete, ofegante.

Moleque — Posso ir embora?

O coronel abriu o papel. À medida que lia, seu rosto perdeu a cor.

Coronel Augusto — Minha Nossa Senhora... Mas isso não é possível! Que desgraça!

Fechou o bilhete com força.

Coronel Augusto — Pode ir, moleque!

Dona Carlota, ao ouvir o desespero do marido, saiu às pressas para a varanda.

O coronel sentou-se lentamente na cadeira, tirou um lenço do bolso e enxugou o suor que escorria pelo rosto.

Carlota — Fala, homem, pelo amor de Deus... O que aconteceu?

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