MP PEDE NOVO INQUÉRITO CONTRA MÉDIUM MAIRA ROCHA POR SUSPEITA DE ESTELIONATO
Ministério Público quer apurar denúncias envolvendo cartas psicografadas, suposta falsidade ideológica e apropriação indébita; famílias relatam mensagens com informações encontradas em redes sociais.
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) pediu que a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) abra um novo inquérito para investigar a médium Maira Alexandrina Leobino Freitas, conhecida como Maira Rocha. O pedido, divulgado nesta segunda-feira (19), envolve suspeitas de estelionato, falsidade ideológica e apropriação indébita.
A solicitação foi encaminhada à Polícia Civil em 22 de agosto, com prazo de dez dias para que fossem informadas as providências adotadas. O novo procedimento se soma a uma investigação já em andamento na 11ª Delegacia de Polícia, no Núcleo Bandeirante, que apura denúncias relacionadas ao trabalho da médium.
As informações foram publicadas pelo portal Metrópoles. Até o momento, as suspeitas ainda dependem de apuração policial e não há, nas informações consultadas, confirmação de condenação criminal de Maira Rocha pelos fatos relatados.
CARTAS ATRIBUÍDAS A MORTOS SÃO ALVO DE DENÚNCIAS
Maira Rocha é fundadora e dirigente da Casa de Caridade Inácio Daniel, localizada em Águas Claras, no Distrito Federal. O centro oferece um serviço de psicografia, prática espiritual na qual mensagens escritas são atribuídas a pessoas falecidas.
De acordo com as reportagens do Metrópoles, dezenas de pessoas procuraram a médium em busca de mensagens de familiares mortos. Parte dos frequentadores e ex-frequentadores passou a questionar a autenticidade dos textos após identificar informações que, segundo os relatos, já estavam disponíveis em publicações públicas na internet.
As denúncias apontam possíveis semelhanças entre trechos das cartas e conteúdos publicados no Facebook, Instagram e outras fontes abertas. Os relatos também mencionam nomes incorretos, apelidos que os falecidos supostamente não utilizavam e informações sobre acontecimentos que não corresponderiam à realidade das famílias.
FAMÍLIA IDENTIFICOU TRECHOS SEMELHANTES A PUBLICAÇÕES NO FACEBOOK
Um dos casos relatados envolve um homem identificado como Paulo*, de 52 anos, que recebeu uma carta atribuída à mãe falecida, identificada como Gabriela*.
Segundo a reportagem, o texto reproduzia uma lembrança familiar sobre a mãe ensinar a oração Salve Rainha aos filhos usando uma régua. A família afirma que uma publicação antiga no Facebook continha uma frase praticamente idêntica.
Outros pontos também levantaram suspeitas. A carta mencionava uma neta que, segundo os familiares, não era neta biológica da falecida, além de utilizar o apelido “Julie” para se referir a uma mulher chamada Juliana.
Os denunciantes afirmam que a falecida não costumava utilizar esse apelido. Trechos relacionados a uma formatura e à semelhança física entre mãe e filho também teriam correspondência com publicações públicas nas redes sociais.
Para a família, o conjunto de coincidências levantou dúvidas sobre a origem das informações utilizadas na mensagem.
OUTRAS FAMÍLIAS RELATAM INFORMAÇÕES INCORRETAS
As reportagens também apresentam o relato de uma empresária identificada como Márcia*, de 44 anos, que perdeu o filho em um acidente de trânsito.
Segundo o Metrópoles, ela recebeu uma mensagem atribuída ao rapaz e inicialmente ficou emocionada. Semanas depois, ao analisar o texto com familiares, teria identificado um trecho semelhante à legenda de uma fotografia publicada por ela no Instagram, por ocasião de uma homenagem ao filho.
A carta também mencionava um cachorro pelo qual o jovem supostamente teria carinho. A família, porém, afirmou que não possuía animais domésticos e que a referência poderia estar relacionada a publicações de uma vizinha.
Outro relato envolve irmãs que perderam os pais. Elas afirmaram ter recebido mensagens com nomes de parentes incorretos, ausência de alguns netos e referência a uma pessoa que, segundo a família, sequer existia.
Em um dos episódios descritos, uma carta teria afirmado que a mãe falecida compareceu espiritualmente ao casamento do filho, embora ela ainda estivesse viva quando a cerimônia aconteceu.
As famílias dizem que passaram a comparar os textos com publicações antigas e outras informações disponíveis publicamente.
SUSPEITA ENVOLVE PESQUISAS EM REDES SOCIAIS E DOCUMENTOS PÚBLICOS
Segundo as denúncias reunidas pelo Metrópoles, as informações utilizadas nas cartas não estariam limitadas às redes sociais. Os relatos mencionam possíveis consultas a notícias, registros públicos, documentos e dados empresariais.
Em reportagem publicada em 8 de setembro, o portal informou que algumas pessoas teriam esperado entre 21 e 68 dias para receber as mensagens. Os denunciantes suspeitam que o intervalo pudesse ser utilizado para levantar informações sobre os falecidos e seus familiares.
Essa interpretação, entretanto, é uma suspeita apresentada pelos denunciantes e não deve ser tratada como conclusão definitiva da investigação.
A Casa de Caridade Inácio Daniel informa que o serviço de psicografia é gratuito e que nem todas as pessoas recebem mensagens. A instituição explica que a entrega dependeria de uma autorização espiritual, segundo suas próprias crenças.
DENÚNCIA ENVOLVE SUPOSTA DOAÇÃO DE R$ 300 MIL
Outra situação mencionada pelo Metrópoles envolve uma suposta mensagem atribuída ao espírito de um menino falecido. Segundo a reportagem, o recado teria orientado os pais a doar ao centro dirigido por Maira Rocha uma poupança de aproximadamente R$ 300 mil que haviam guardado para o filho.
O episódio integra as denúncias divulgadas pelo portal, mas não representa, por si só, comprovação de crime ou de que a quantia tenha sido efetivamente transferida.
A Federação Espírita do Distrito Federal (FEDF), ouvida pelo Metrópoles, alertou para a necessidade de cautela diante de pessoas ou instituições que solicitam pagamentos ou doações em troca de supostas mensagens espirituais. A entidade ressaltou a importância da gratuidade e da possibilidade de questionar a autenticidade das comunicações mediúnicas.
POLÍCIA CIVIL JÁ INVESTIGAVA DENÚNCIA ANTERIOR
Em reportagem publicada em 1º de setembro, o Metrópoles informou que a 11ª Delegacia de Polícia do Distrito Federal já havia instaurado um inquérito para apurar fatos ocorridos em 2019, no Núcleo Bandeirante.
Na ocasião, a Polícia Civil informou que o registro da ocorrência havia sido feito em 21 de setembro de 2025 e que aquela investigação contava com uma vítima formalmente identificada.
Paralelamente, o Ministério Público instaurou uma notícia de fato para analisar as denúncias recebidas pela Ouvidoria. O pedido de abertura de um novo inquérito, divulgado agora, amplia a apuração sobre possíveis crimes relacionados ao caso.
A investigação deverá esclarecer as circunstâncias das denúncias, ouvir pessoas envolvidas e analisar os documentos e demais materiais apresentados.
DENUNCIANTES RELATAM ABALO EMOCIONAL
Além das suspeitas sobre a origem das informações, pessoas ouvidas pelo Metrópoles relataram sofrimento emocional após questionarem a autenticidade das mensagens recebidas.
Entre os depoimentos estão relatos de ansiedade, crises de pânico e frustração. Os denunciantes afirmam que procuraram o serviço em um momento de fragilidade provocado pela perda de familiares e que a descoberta de possíveis inconsistências tornou a experiência ainda mais dolorosa.
A reportagem também registrou acusações de intimidação e de medidas judiciais contra pessoas que questionaram o trabalho da médium. Essas alegações igualmente dependem de apuração e não devem ser tratadas como fatos judicialmente comprovados.
O QUE DIZ O OUTRO LADO
Em reportagem anterior, publicada em setembro, o Metrópoles informou que Maira Rocha afirmou que processaria o veículo. Na publicação mais recente, de 19 de outubro, o portal declarou manter aberto o espaço para manifestações da defesa da médium e da administração da Casa de Caridade Inácio Daniel.
Não foi possível confirmar, nas informações consultadas para esta matéria, uma manifestação específica da defesa sobre o novo pedido de investigação.
INVESTIGAÇÃO AINDA PRECISA ESCLARECER AS DENÚNCIAS
O pedido do Ministério Público representa uma nova etapa na apuração de denúncias que envolvem famílias enlutadas e mensagens atribuídas a pessoas falecidas.
O ponto central será verificar se houve utilização indevida de informações pessoais, fabricação deliberada de mensagens ou prática de algum dos crimes investigados. A análise das provas e os depoimentos das pessoas envolvidas serão fundamentais para esclarecer os fatos.
Maira Rocha não pode ser considerada culpada apenas com base nas denúncias. A responsabilidade criminal, caso exista, deverá ser estabelecida pelas autoridades competentes, mediante provas e respeito ao direito de defesa.
Com informações do portal Metrópoles.
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